Vale do Café é uma valiosa aula sobre a história do Brasil

A região fluminense viveu o ápice e ruína econômicos nos tempos imperiais. Entre 1830 e 1850, os barões que ali viviam ficaram ainda mais ricos às custas do trabalho escravo. Em 1888, com a abolição da mão de obra escrava e com terras devastadas devido ao mau uso (promoveu a derrubada maciça da Mata Atlântica para o plantio do grão), fazendas e casarões foram abandonados. Porém, ainda hoje podem ser conhecidos.

O chafariz de 1846. Ao fundo, a Matriz de Nossa Senhora da Conceição na Praça Barão de Campo Belo. Foto: Thaís Kobi/Wikimedia

Viajar sempre é bom. E, depois de passar um ano todo vivendo o isolamento social, ficou ainda melhor. Como muitos países proibiram voos e o ingresso de brasileiros, os destinos nacionais passaram a ser uma opção bem interessante. Com praias cinematográficas, imponentes serras e montanhas e lugares de natureza irretocável, o Brasil abriga paisagens únicas, oferecendo cantos e encantamentos para todos os gostos e idades, incluindo os que são uma verdadeira aula de história, como é a região Vale do Café, no Rio de Janeiro.

Vassouras é uma das cidades que integra o Vale do Café. Localizada a 110 km da cidade do Rio de Janeiro e a 128 km da mineira Juiz de Fora, guarda um riquíssimo tesouro histórico-cultural, herança dos tempos áureos do café no Vale do Paraíba fluminense. Testemunha do período do Ouro Verde, como o Ciclo do Café também é conhecido, a cidade nos tempos de Brasil Império viveu dias de glória e luxo, sendo líder mundial na produção e exportação do grão ao produzir 75% do café consumido no mundo graças à utilização e exploração da mão de obra de escravos.

O Paço Municipal (à  esquerda na  foto) de Vassouras, cidade com 37 mil habitantes. Foto: Pinterest

O centro da cidade abriga um precioso capítulo da história do Brasil, que pode ser percorrido a pé. Na Praça Barão de Campo Belo é possível admirar centenárias palmeiras imperiais e conhecer importantes construções históricas, como o palacete onde viveu o Barão de Itambé, único de barroco mineiro, e o casarão do Barão do Ribeirão, onde funcionou a casa de Câmara e Cadeia em 1860 e, mais tarde, a prefeitura.

De estilo neoclássico, o palacete onde viveu o Barão de Itambé está localizado na Rua Barão de Tinguá, à direita da Matriz . Foto: Portal Vale do Café

Na praça também fica a Matriz de Nossa Senhora da Conceição. De 1828, a igreja é a mais antiga construção da cidade. Ao lado da igreja está o Centro Cultural Cazuza, construído no casarão da mãe do falecido cantor, Lucinha Araújo. Com exposição permanente sobre a vida e a obra de Cazuza, tem entrada gratuita.

Pouco abaixo da praça fica um conjunto de casas que deu origem ao Shopping Casario. Já a antiga estação de trem foi transformada em um Posto de Informações Turísticas. Construída  em 1914, a estação ferroviária é tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Ao redor da praça estão lojas e cafeterias, onde é possível saborear um cafezinho de primeira. E se o assunto é café, a dica é visitar o Vassouras Café Escola, que é uma escola para apreciadores da bebida e onde são vendidos produtos, como licor, brigadeiro, bolachas e o próprio café moído e torrado.

Ainda no centro fica o Museu Casa da Hera, um palacete com paredes de hera. Com 33 mil metros quadrados, foi construído provavelmente em 1836 em uma chácara. Possui 22 cômodos e preserva os móveis, o piano francês Henri Herz, as roupas, as pratarias,as  telas e os objetos de decoração do século 19. Além de um túnel de bambu (conhecido como túnel do amor), tem um jardim de inverno com rosas centenárias, inclusive uma espécie rara, sem espinho.

Além do mobiliário, quadros e objetos de uso doméstico e de decoração originais, o acervo da casa inclui uma rica biblioteca e uma importante coleção de trajes de origem francesa. Foto: Wikimedia

A Casa da Hera pertenceu a Joaquim José Teixeira Leite (1812 a 1872), um dos mais importantes comissários de café da região e filho do Barão de Itambé.  Não se sabe com exatidão a data de sua construção, mas provavelmente data da primeira metade do século 19, possivelmente antes de 1836 – é tão antiga  que suas paredes não são de alvenaria, mas sim de adobe e pau-a-pique. A última proprietária foi a filha de Joaquim José Teixeira Leite, Eufrásia Teixeira Leite.

Ao falecer em 1930, ela deixou a maior parte de seus bens como herança para entidades filantrópicas de Vassouras. A Casa da Hera foi uma delas, sendo que, em uma das cláusulas do testamento, Eufrásia estabelecia que a propriedade teria de ser “conservada com tudo que nela existisse no mesmo estado de sua construção original, não podendo ocupar ou permitir que fosse ocupada por outros”.

O museu é um exemplo de habitação urbana onde a rica aristocracia viveu o apogeu das plantações de café no Vale do Paraíba fluminense. Foto: Hotel Santa Amália

A casa e as terras da chácara foram herdadas pelo Instituto das Irmãs Missionárias do Sagrado Coração de Jesus. Em 1952, a propriedade foi tombada pelo IPHAN como expressão do cotidiano de uma família rica de fazendeiros e comissários de café do século 19. Em 1965, o órgão assinou um convênio de caráter permanente com Instituto das Irmãs Missionárias, assumindo a guarda e o controle da casa, que então passou a ser aberta à visitação pública.

Barões do Café – Visitar a cidade permite reviver o Ciclo do Café. Vassouras e os municípios da região do Vale do Paraíba do Sul do Rio de Janeiro oferecem grande potencial e logística possibilitando que o visitante conheça as demais cidades que fazem parte do Vale do Café.

As fazendas históricas da região têm o cultivo de café aberto à visitação. Foto: Sebastião Afonso da Silva/Canal Rural

Além de Vassouras, ouras 15 cidades integram esse circuito. São eles: Valença (sobretudo o Distrito de Conservatória), Piraí, Barra do Piraí (Distrito de Ipiabas), Rio das Flores, Volta Redonda, Barra Mansa, Engenheiro Paulo de Frontin, Paty do Alferes, Paracambi, Miguel Pereira, Mendes, Pinheiral, Rio Claro e Paraíba do Sul.

Juntas, elas formam um dos mais interessantes roteiros turísticos e históricos do Brasil. Espalhados por aqui e ali estão dezenas de construções históricas e fazendas centenárias da época dos barões do café. Essa região abriga ainda parques, estradas cercadas de Mata Atlântica preservada, rios, corredeiras, cachoeiras e uma infinidade de opções gastronômicas.

Hospedagem – Vassouras oferece diversas opções, desde pousadas até hotéis e fazendas históricas.  O Hotel Santa Amália, um dos mais tradicionais da cidade, é uma delas. Inaugurado em 1969, alia detalhes de modernidade e conforto e é referência em serviços de hotelaria em toda a região.

Antiga sede do Convento Sacre Coeur de Marie, tem 40 mil m² de área verde e uma atmosfera de aconchego e tranquilidade, oferece restaurante, sala de jogos, piscina, piscina aquecida, bar de piscina, playground, jardins tropicais e apartamentos equipados com tevê, frigobar, ventilador de teto e ar-condicionado, numa decoração minimalista e moderna, sem esquecer o glamour da arquitetura original.

O Santa Amália está com uma promoção especial para o mês de fevereiro. Foto Portal: Vale do Café

Para os fins de semana de fevereiro, o empreendimento preparou uma promoção especial. O pacote com pensão completa do hotel inclui visita pelo centro histórico de Vassouras no sábado, acompanhado por guia para desvendar as principais antigas construções da cidade.

No domingo, a programação inclui o Jardim Ecológico Uaná Etê. Cercado por preservada vegetação nativa da Mata Atlântica, oferece dez quilômetros de trilhas, chuveirões, escalda-pés e espaços para exercícios e meditação em meio à natureza. Conta ainda com mais de 20 jardins temáticos inspirados nas artes, em sons e em elementos da natureza, como o Bosque dos Cristais, a árvore das infinitas possibilidades cheia de fitas de cetim para o visitante enlaçar seus desejos e o campo de lavandas.

Com 135 mil metros quadrados, o jardim tem entre suas atrações teias entre árvores para descanso ou movimento. Foto: Hotel Santa Amália

Desde o início da pandemia, o Santa Amália não fechou um dia sequer. Manteve o atendimento, apenas adaptando-se aos protocolos de distanciamento social e às normas de prevenção do Covid-19. Em incentivo à produção local e visando promover o intercâmbio entre turistas, população e artesões, a administração do hotel criou a Santa Feira. A iniciativa reúne mais de 20 expositores locais em um espaço onde eles comercializam queijos, doces, bordados, sacolas artesanais, bijuterias, sabonetes e cremes, produtos em couro, licores, mel e cafés gourmets.

A Vila Hibisco Pousada e Apart é outra alternativa em Vassouras. Aconchegante, bem-estruturada, com arquitetura diferenciada e acomodações modernas, constitui-se em uma boa oportunidade de hospedagem para quem quer conhecer a cidade histórica, assistir ao por do sol do alto do mirante e admirar a lua surgindo atrás da igreja no alto da praça.

Localizada no coração de Vassouras e próxima ao centro histórico e aos principais bares, restaurantes e lojas de comércio e de serviços, o empreendimento une moradia e hospedagem. Nela, tanto é possível desfrutar da praticidade dos serviços de hotelaria como das comodidades de apenas ficar hospedado.

Pousada Vila HIbisco tem excelente localização. Fica bem perto do centro da cidade. Foto: Divulgação

A Vila Hibisco possui 24 unidades, sendo dez apartamentos equipados com cozinha, com mini-cook, pia, frigobar e micro-ondas. Oferece serviço de camareira, jardim, piscina, café da manhã, bistrô e wi-fi para estadias permanentes ou temporárias.

Fazendas históricas – São uma atração à parte de Vassouras.  Obrigatoriamente, o tour pela Cidade dos Barões inclui visitas a antigas fazendas do Ciclo do Café do século 19. Entre as 30 propriedades históricas e abertas à visitação da  região encontra-se a Fazenda São Luiz da Boa Sorte.. Sinônimo de diversão garantida, para os pais e para a garotada, dispõe de tirolesa, caiaque, fazendinha, trilha ecológica e passeio a cavalo opcional. Os monitores da propriedade animam a criançada enquanto os pais aproveitam a piscina e a prainha de água doce, acompanhados de uma gostosa caipirinha.

A Fazenda São Luiz da Boa Sorte ainda preserva traços de sua arquitetura colonial. Foto: Booking

As refeições, preparadas no fogão à lenha, completam a incrível experiência nessa fazenda histórica que recebe os visitantes com serviços de alto padrão. Com fachada original, reproduz um casarão do século 19 internamente: é uma viagem ao tempo garantida.

Cachaças premiadas – O Vale do Café também é conhecido pela produção de uma das mais premiadas cachaças da região, é a Cachaça Werneck. Artesanal e orgânica, a Werneck está na lista das 20 melhores cachaças do país segundo o Ranking da Cúpula da Cachaça e a versão Ouro da bebida recebeu medalha de ouro no Concurso de Vinhos e Destilados do Brasil. Para acompanhar, a pedida são os pratos oferecidos pelo bistrô do Jardim Ecológico Uaná Etê, que atende número limitado de comensais, sempre com reserva. Bom apetite!

 

SERVIÇO

Onde ficar

Hotel Santa Amália (www.hotelsantaamalia.com).

Vila Hibisco Pousada e Apart (www.vilahibisco.com.br).

Fazenda São Luiz da Boa Sorte (https://fazendasaoluizdaboasorte.com.br).

 

Crédito da abertura do texto: O Posto de Informações Turísticas funciona na Estação de Ferro construída em 1914. Foto: Vale do Café

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

%d blogueiros gostam disto: