Cripta Arqueológica de Notre Dame tem exposição sobre romance de Victor Hugo

O espaço subterrâneo da igreja mais visitada de Paris está aberto ao público e abriga uma mostra que revisita os debates sobre a reconstrução deste importante monumento histórico francês, enquanto os trabalhos de renovação continuam à superfície do solo.

A catedral começou a ser construída em 1163. Sua inauguração ocorreu em 1345. Foto: Needpix

Fechada desde o incêndio na catedral em 15 abril do ano passado, a Cripta Arqueológica da Ile de la Cité foi reaberta ao público no início de setembro, com a exposição “Notre Dame de Paris, de Victor Hugo a Eugène Viollet-le-Duc”. A mostra pode ser vista no espaço de 2.200 metros quadrados que revela o coração de Paris entre o século 1 e 4 e que fica exatamente abaixo do adro da catedral parisiense. A curadoria é dos Museus de Paris.

Segundo Valérie Guillaume, diretora do Museu Carnavalet-Histoire de Paris e da Cripta Arqueológica, a concepção da mostra surgiu um dia após o incêndio da Notre Dame, como fruto de uma ideia de Delphine Lévy, ex-diretora dos Museus de Paris, falecida no ano passado. “Ela me pediu para organizar uma mostra em homenagem à igreja. Citei os primeiros fotógrafos da catedral no século 19, cujas obras estão no Carnavalet.  Delphine então decidiu acrescentar o romance de Victor Hugo (1802/1885). Assim nasceu a exposição, que é um percurso literário e fotográfico apresentando a Notre Dame como o escritor a imaginou e a transformou no século 19”, conta Valérie.

Ruínas existentes na Cripta Arqueológica de Notre Dam incluem a antiga cidade de Lutece. Foto: Jean-Pierre Dalbéra/Wikimedia

Entre os desenhos, as pinturas e as fotografias do século 19, os trechos de filmes sobre a igreja e as citações do romance de Victor Hugo que nos anos 30 do século 19 despertou a paixão dos parisienses pela catedral, os curadores quiseram contar a história de quase 500 anos de abandono a que a Notre Dame esteve sujeita e os esforços posteriores à publicação do livro para a renovar. “Foi Victor Hugo que a transformou em um monumento nacional”, diz Vincent Gille, curador da Maison Victor Hugo, em Paris.

Gille conta que a exposição não apresenta exclusivamente a história de Notre Dame, mas se concentra no século 19, um período crucial. Vandalizada durante a Revolução Francesa e desprezada pelo seu estilo gótico considerado bárbaro, a catedral estava ameaçada de destruição. “Foi o romance ‘Notre Dame de Paris’, publicado em 1831, que a salvou. Victor Hugo despertou o entusiasmo popular que possibilitou a captação de recursos para sua preservação ”, explica.

Antes do romance de Victor Hugo, as autoridades da capital parisiense ponderaram até mesmo demolir a igreja, mas após a publicação do romance, houve financiamento público para limpar e renovar a sua estrutura, incluindo a construção de uma nova torre. Os trabalhos ficaram a cargo dos arquitetos franceses Jean-Baptiste Lassus e Eugène Viollet-le-Duc.

Além dos itens datados do século 19, a exposição apresenta ainda a restauração feita na Notre Dame por esses dois arquitetos a partir de 1844, um trabalho que apenas foi realizado graças ao entusiasmo gerado pelo livro de Victor Hugo, também autor do clássico literário Os Miseráveis.

Detalhes desse restauro podem ser conhecidos nas fotografias expostas, uma técnica que à época ainda dava os seus primeiros passos: Charles Nègre (1820/1880), Edouard Baldus (1813/1889), Charles Marville (1813-1879) e Gustave Le Gray (1820/1840) imortalizaram com seus cliques a catedral e a sua evolução ao longo da obra que demorou 20 anos para seu concluída.

Logo na entrada, os visitantes também podem percorrer um novo percurso arqueológico com vestígios e banhos termais que ainda agora estão intactos na cripta, onde se pode conhecer a cidade de Lutece, que antecedeu Paris, com estruturas como casas e portas ainda preservadas com quase dois mil anos e um acesso ao antigo porto, além de uma muralha do século 4.

A exposição ficará em cartaz durante seis meses. Foto: Msadp06/Wikimedia

Há também pinturas que representam os personagens que assombraram a Notre Dame de Victor Hugo, como a dos personagens centrais de seu romance: o corcunda Quasimodo e Esmeralda, jovem cigana objeto de todos os desejos.

Um guache sobre papel do desenhista e gravurista francês François-Nicolas Chifflart (1825/1901) revive o fogo que marcou essa Notre Dame imaginária: aquele em que Quasimodo derrama chumbo derretido na praça por meio de um fogo aceso na galeria. Uma ação que visa proteger Esmeralda, que se refugiou na igreja.

Também existem vestígios de edifícios em torno da catedral na Idade Média e as suas alterações no decorrer do século 18, ainda visíveis desde a época de Victor Hugo. “ No subsolo, temos a visão que Victor Hugo teve, com edifícios à volta da catedral. É esse antes-depois que a exposição permite ver”, afirma Valérie.

As obras – Exceto os vestígios, todas as obras da exposição são reproduções, pois a umidade e a temperatura da cripta não permitem a boa conservação das valiosas e frágeis peças originais. Entretanto, a coleção de aproximadamente 60 peças da mostra está retratada em telas interativas e sensíveis ao toque que descrevem a restauração da catedral iniciada por Viollet-le-Duc.

Todas as obras da mostra têm painéis interativos. Foto: Franceinfo Culture/Manon Botticelli

As obras são acompanhadas por dispositivos digitais que permitem descobrir as evoluções da catedral em 3D durante a sua construção. Em cada etapa da exposição, existe também um monitor que sintetiza e simplifica as explicações do percurso para o público jovem.

SERVIÇO

A Cripta arqueológica da Ile de la Cité em Paris está localizada sob a Praça de Notre Dame e a exposição “Notre Dame de Paris, de Victor Hugo a Eugène Viollet-le-Duc”, que ficará em cartaz por seis meses, tem ingressos a 9 € (preço total) e a 7 € (preço reduzido).  Grátis para menores de 18 anos. Recomenda-se reserva on-line. É obrigatório o uso de máscara.

 

Crédito do destaque: Catedral de Notre Dame vista do Rio Sena. Foto: Pixabay

 

 

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