Coqueluche brasileira

No Brasil, o crescimento dos partos por cesariana supera – e muito – o percentual de 15% indicado pela Organização Mundial da Saúde, preocupando o Ministério da Saúde, que quer estimular o parto normal. Maniqueísmo à parte, a questão é que há boas razões tanto para optar por um quanto por outro

Por Fabíola Musarra

Até há pouco tempo criticada pelos obstetras que classificavam de antiéticos os colegas que faziam a cesariana “sem precisar”, essa cirurgia ganha cada vez mais adeptas no mundo. O Brasil não é uma exceção. Ao contrário, é um dos países campeões em cesarianas. Prova disso é que praticamente um em cada dois brasileirinhos nascidos entre 2000 e 2007 veio ao mundo por meio de cesárea. A informação faz parte da publicação “Saúde Brasil 2009”, divulgada em dezembro pela Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS) do Ministério da Saúde. Contrariando o índice de 15% recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), o levantamento mostra que o número de cesarianas subiu de 38% para 47% em todo o País.

A escolaridade das mães está relacionada a esse aumento: o menor índice de cesáreas está entre mulheres com baixo nível de escolaridade e nas regiões Norte (15%) e Nordeste (17%), enquanto os maiores estão entre mães com 12 ou mais anos de estudo das regiões Sudeste (76%), Sul (75%) e Centro-Oeste (77%). Tão significativos como esses números são as polêmicas geradas por esse tipo de parto. Enquanto o Ministério da Saúde faz o que pode para incentivar o parto normal, obstetras lembram que a cesariana tem as suas vantagens – desde a praticidade e segurança oferecidas pela cirurgia até a estética (a cicatriz fica abaixo da bexiga e a mãe pode usar biquíni).

“A escassez de tempo e o imediatismo da vida moderna levam mulheres e médicos a achar mais cômoda a cesárea do que o parto normal. Daí o aumento desse tipo de parto no Brasil e no mundo”, diz a coordenadora da área de Saúde da Mulher do Ministério da Saúde, Thereza de Lamare. Outros motivos são o medo da dor do parto, o desconhecimento dos benefícios proporcionados pelo parto normal e a falsa sensação de que a cesárea é um procedimento sem riscos. “A excessiva carga de trabalho dos profissionais de saúde os leva a preferir programar o parto. Sem contar que a formação acadêmica, muitas vezes, segue a cultura médica tradicional, que valoriza uma visão intervencionista em detrimento do processo fisiológico e natural do parto”, completa.

Para conter o avanço das cesarianas no País, profissionais do Ministério da Saúde vêm implantando várias iniciativas, desde a adoção de ações conjuntas com a Agência Nacional de Saúde para valorização do parto normal até a proposta de revisão de currículos acadêmicos feita ao Ministério da Educação e dos programas de residência, passando pelas campanhas e conferências para sensibilização e educação das brasileiras sobre os benefícios do parto normal. “Ao lado das secretarias municipais, estamos aperfeiçoando as atividades desenvolvidas durante o pré-natal no preparo da gestante, física e emocionalmente, para o momento do parto, deixando-a mais informada e confiante”, conta Thereza.

Também a capacitação de profissionais do Sistema Único de Saúde (SUS) para realizar o parto normal está incluído no programa ministerial. Os profissionais funcionam como multiplicadores para difundir a concepção de que o parto faz parte de um processo fisiológico da mulher, no qual ela é protagonista da ação e o médico deve ser um facilitador do processo, promovendo o máximo de conforto à parturiente. Simultaneamente, eles ensinam como são feitos os partos normais e desmitificam técnicas ultrapassadas.

PREMATURO

Não é à toa, porém, que o Ministério da Saúde defende o parto humanizado, como seus profissionais denominam o parto normal. O relatório “Saúde Brasil” relacionou a cesariana ao nascimento de bebês com baixo peso (menos de 2,5 quilos), um fator de risco para a mortalidade infantil. No Sudeste, região onde foi constatado o maior número de cesarianas, 9,2% dos bebês nasceram com baixo peso, enquanto na região Sul foram 8,7%. Os menores percentuais de bebês com baixo peso são registrados em regiões onde o percentual de cesarianas foi menor: Norte e Nordeste.

Apesar das estatísticas, o médico Paulo Olmos, doutor em ginecologia e obstetrícia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e chefe do Serviço de Reprodução Humana do Hospital Brigadeiro de São Paulo, não relaciona o aumento de cesarianas ao maior número de crianças que nascem abaixo do peso, um problema que advém de erro no diagnóstico para determinar a data em que a cesariana será feita, tanto no SUS como no sistema privado de saúde. “Pela própria publicação do Ministério da Saúde percebe-se que está havendo erros na hora da avaliação da maturação da criança”, avalia. “Se a cesárea for feita a partir da 39ª semana de gestação, o risco de o bebê nascer prematuro e, portanto, com pouco peso é nulo.”

“Os exames de ultrassom informam com enorme precisão, no início e no meio da gestação, qual é o tempo exato da gravidez e quantas semanas de vida tem o feto. Portanto, se a criança nasce com pouco peso é porque o parto foi feito antes da hora”, observa Thomaz Gollop, ginecologista e obstetra formado na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo em 1971. “A cesariana não é a causa principal desse problema, mas sim o erro de diagnóstico nas datações da gestação e do parto”, argumenta.

Os dois médicos asseguram não existir um tipo de parto ideal, lembrando que hoje o casal pode optar pelo tipo de parto que julgar mais conveniente – normal ou cesariana. No parto normal a recuperação da mulher é mais rápida, a chance de ela ter infecção e hemorragias é mínima e a criança nasce mais forte e saudável. O tempo de duração do parto é em torno de 12 horas. Sua realização requer uma equipe médica e equipamentos para monitorar a gestante e o bebê – hoje a obstetrícia visa, em primeiro lugar, ao bem-estar fetal, pois a mãe não corre mais o risco de morrer no parto.

“Todos esses cuidados são necessários porque as complicações e o sofrimento durante o trabalho de parto normal podem ser indeléveis para o bebê. Ele pode ter paralisia cerebral, por exemplo”, diz Olmos. Segundo explica, a criança corre mais risco no parto normal do que na cesariana, porque toda vez que o útero da mãe se contraí, o sangue deixa de ir para ela. Com isso, o bebê precisa ter uma reserva de oxigênio para suportar a falta de oxigenação que ocorre nas contrações.

A cesariana não é a causa principal do aumento de bebês que nascem abaixo do peso, mas sim o erro de diagnóstico nas datações da gestação e do parto

SEQUELAS Cada gravidez é única. Por isso, há casos em que a mulher, mesmo tendo optado pelo parto normal, é obrigada a fazer cesárea. Entre outras situações, isso ocorre sempre que o bebê estiver sentado, sofrendo ou que já tenha passado da hora de nascer. A cesariana também é feita quando há complicações durante o parto normal, placenta prévia, uma patologia grave ou mecônio (as fezes do bebê) espesso e na gestação de gêmeos.

Fatores de risco à parte, a cirurgia é simples, segura e dura cerca de 50 minutos. O corte abaixo da barriga não passa de 10 cm e os pontos são absorvidos pelo organismo. Outras vantagens desse procedimento são as de a gestante saber com antecedência quando o bebê nascerá e sentir muito menos dor (também o nenê não sofre), além de preservar o aparelho genital. Por se tratar de uma cirurgia, a recuperação é mais lenta. Em compensação, a mulher está mais sujeita a ter infecção.

Embora os órgãos públicos se empenhem pela reabilitação do parto normal, ele deixa sequelas para a mulher, sobretudo a partir de seus 50 anos, quando ela poderá ter incontinência urinária ou danos no assoalho pélvico: queda de útero, de reto e de bexiga. Quem garante é Gollop, ao contar que a mulher que dá à luz por parto normal está 11 vezes mais sujeita a ter de fazer cirurgias para corrigir esses problemas.

Gollop sabe muito bem o que está falando. Conhece de perto as duas realidades do sistema de saúde brasileiro – o público e o privado. Há muitos anos ele atende pacientes do SUS no Hospital Pérola Byington de São Paulo (especializado na mulher e em ginecologia) e no Hospital Universitário de Jundiaí (SP) e também em sua clínica particular. Com especialização em cirurgias de assoalho pélvico, ele cita os dados de um trabalho que está desenvolvendo para o Ministério da Saúde, segundo os quais 30% das mulheres acima dos 50 anos dos países do Primeiro Mundo requerem uma cirurgia para incontinência urinária ou para a correção dos defeitos pélvicos.

“É um percentual elevado, que faz os governos gastarem uma verba considerável por ano em cirurgias corretivas”, comenta Gollop. Ele explica que no Brasil não existem estatísticas sobre isso, mas que na realidade os dados devem ser iguais ou superiores aos do Primeiro Mundo. “Poucas mulheres reclamam desses problemas. Grande parte delas acha natural ter incontinência urinária, o útero caído… Quanto menor o grau de instrução, mais grave é o quadro, porque a mulher conversa com a vizinha, que também tem o problema, e as duas acabam concluindo que esses tipos de danos são naturais”, acrescenta Olmos.

Se em termos de saúde os dois tipos de partos se equivalem, o mesmo não acontece economicamente. Enquanto no SUS a maioria dos partos é normal, a cesariana é feita em 80% a 90% dos partos da rede privada. O motivo? A cesariana não é a melhor opção para a saúde pública porque, além de ser mais cara, não tem qualidade suficiente, tanto de médicos quanto de hospitais, para garantir a taxa mínima de risco de um parto normal. Já no sistema de saúde privado, esse aumento de cesarianas acaba sendo justificado, porque ele implica menor custo para os convênios e hospitais, além de maior segurança para a criança e mãe.

A favor do parto normal

É um procedimento natural e não tem contraindicações para a maioria das mulheres. Apesar disso, não é um procedimento simples. É uma situação de risco e precisa da interferência médica.

A data do nascimento do bebê não é determinada. É preciso esperar as contrações e a dilatação do colo do útero, mas após 37 semanas a mãe deve aguardar pelo parto, que pode ser a qualquer momento.

Quando o bebê passa de 42 semanas (o tempo que se pode esperar para o parto espontâneo), pode-se induzir o parto com medicamentos. Se a mulher já fez uma cesárea, isso não é possível, e é preciso fazer nova cesárea.

Favorece a expulsão dos líquidos pulmonares do bebê e oferece menos risco de desconforto pulmonar após o parto. Já a mãe tem menos chances de ter infecções e hemorragias.

Em média, o trabalho de parto demora 12 horas, sendo que a dilatação evolui 1 cm por hora, e após 10 cm a expulsão do bebê demora 1 hora. As dores de parto começam devagar e espaçadamente. Depois, ficam mais fortes e constantes, ajudando a dilatar o colo do útero, que deve chegar a 10 cm para que o bebê nasça. Após 5 cm de dilatação, a dor da gestante piora e é ministrada a anestesia peridural ou a raquianestesia.

Tem menor custo para os pais e para o hospital.

A favor da cesariana

A mãe decide quando será o parto, que é realizado no mesmo dia da internação.

A gestante tem certeza de que o médico que acompanhou sua gravidez fará o parto. No parto normal, como não há hora para nascer, o médico nem sempre está disponível e um plantonista ou obstetriz conduz o parto.

A anestesia dada é a raquidiana ou a anestesia peridural.

A mulher não sente as dores do parto, mas no pós-operatório há mais dor devido ao corte na barriga e à manipulação do médico.

A cesárea é uma cirurgia, com todo risco de complicações de qualquer cirurgia (infecções, hemorragias e risco anestésico, entre outros).

O pulmão do bebê não é tão comprimido durante a cesárea. Por isso, ele tem maior risco de ter desconforto para respirar após o parto.

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