Ano Novo, entrar com o pé direito

Antigas civilizações já cumpriam rituais na passagem do Ano Novo, expressando o seu desejo de renovação por meio de ritos. O Brasil é herdeiro dessas tradições.

Fogos - Fim de ano Foto Pixabay.jpg
Foto: Pixabay

 

Por Fabíola Musarra

Dia 31 de dezembro. O calendário marca o último dia do ano. Em todo o Brasil, assim como nos demais países do mundo, o clima de festa leva multidões para as ruas. Com o coração repleto de esperança, elas aguardam o nascer do novo ano. As comemorações acontecem em todas as regiões do País, mas cada uma delas tem seu estilo próprio de festejar a data.

Enquanto no Norte e no Nordeste brasileiro as festas são embaladas pelo axé, forró, maracatu, frevo, samba e pagode; no Sul e no Sudeste País (especialmente nas cidades do interior), elas se destacam pela caprichada decoração e iluminação de Natal que enfeitam as cidades até o Dia dos Reis Magos, em 6 de janeiro. Porém, tanto no Norte ou no Sul quanto no Leste ou no Oeste, o Ano Novo é sinônimo de renovação.

Lentilha - Foto Pixabay.jpg
Foto: Wikimedia

É hora de fazer planos e de se cercar de simpatias para garantir que os próximos 12 meses tragam paz, saúde, prosperidade e amor. Alguns comem lentilhas, arroz, uvas e romãs. Outros se vestem de branco, sobem em banquinhos e se apoiam no pé direito à meia-noite. Afinal, vale tudo para assegurar um ano melhor. Toda vez que chega o dia 31 de dezembro, esses rituais se repetem, mas a maioria das pessoas desconhece a sua origem.

Ritos e superstições

Antigas civilizações já acreditavam em várias dessas superstições e expressavam o seu desejo de renovação por meio de ritos. No último dia do ano, jogavam fora roupas e objetos crendo que com isso estavam eliminando tudo que era velho de suas vidas. Ainda no primeiro dia do ano, escalavam uma montanha alta para ver uma paisagem diferente ou banhavam-se, em um rio ou no mar, para acolher o novo tempo que havia chegado.

Dos primórdios da humanidade aos dias atuais, esses e outros rituais foram sendo adotados pelos povos. Com as imigrações para outros países, essas tradições seguiram junto com eles, desembarcando na nova terra, onde num processo de aculturação, ganharam vida própria e características peculiares em cada um dos cantos do mundo. O Brasil não foi uma exceção: ao longo de toda a sua história, incorporou muitos desses ritos à sua cultura.

Pular ondas - Foto Pixabay.jpg
Foto: Wikimedia

A roupa branca do Réveillon, por exemplo, é uma influência das tribos africanas. Para os negros que vieram ser escravos no Brasil durante os períodos da Colônia e do Império, a cor branca tinha o significado de paz e purificação. Também pular as sete ondas do mar é uma tradição africana ligada à umbanda e ao candomblé.

O sete é um número considerado sagrado por essas religiões. Assim, pular sete ondas é invocar os poderes de Iemanjá, entidade sincretizada à Nossa Senhora, mãe de quase todos o orixás africanos e protetora das águas. Com o ritual, a rainha do mar estaria limpando a aura e o corpo de seus filhos, além de renovar as suas energias, dando-lhes força para vencer os obstáculos do próximo ano.

No último dia do ano, é comum ainda que os devotos de Iemanjá ofereçam presentes para ela, como flores (sobretudo rosas  brancas), perfumes, espelhos e colares. A entrega do presente é feita nas águas do mar, para agradecer e também para pedir à rainha dos mar proteção e paz no ano seguinte. Já na areia das praias, e com essas mesmas intenções, são acendidas velas.

Foto: Marko Milivojevic/Pixnio

Origens e curiosidades

Do traje branco a outros curiosos rituais,  os ritos e superstições já fazem parte da passagem de ano dos brasileiros. Quem nunca comeu lentilha nessa data? Pois, uma colher de sopa é o suficiente para assegurar um ano inteiro de muita fartura na mesa. A origem desta superstição é italiana e foi trazida para o Brasil pelos imigrantes.

O arroz simboliza a fertilidade e a abundância e é associado à riqueza. Em países como a Dinamarca, o Líbano, a Coréia e o Japão, o cereal não falta à mesa na passagem do ano, pois as  pessoas acreditam que comer arroz nessa data traz muita sorte. No Brasil, especialmente as famílias de origem asiática e europeia também seguem a tradição.

Muita gente, nem que ganhe de graça, come peru, chester, faisão, frango, codorna ou qualquer bicho semelhante no último dia do ano, por acreditar que, como esses aves ciscam para trás, elas fazem a vida  retroceder, andar para trás. Portanto, são um atraso de vida e dão azar.

Já o porco está sempre andando e fuçando para frente, sendo uma boa opção para a ceia dos supersticiosos, nas quais sempre estão presentes o leitão, o pernil, o lombo e o tender.  Com alto teor de gordura, o porco  é associado à riqueza  e à fartura. Assim, comer a carne do animal na ceia de fim de ano garante a sorte e a prosperidade.

Foto: FrimesaqEstúdio Panka

Comer uvas e romãs também são outras tradições que nasceram na Europa, mas que são levadas a sério por aqui. Em Portugal,  enquanto as badaladas do relógio anunciam a chegada do novo ano, os portugueses comem bagos de uva na quantidade equivalente ao seu número de sorte, tudo para garantir a prosperidade e a fartura. Como no país luso, os brasileiros também comem uvas, mas  apenas três unidades. Em cada  uma delas, fazem um pedido. Depois, enterram as cascas sem que alguém veja, assegurando que seus desejos se concretizarão no ano que está começando.

Frequente às ceias brasileiras de fim de ano, a romã é cultuada em civilizações do oriente, por acreditarem que ela tem o poder de atrair riquezas para quem a planta. Assim, a fruta é utilizada em simpatias para atrair prosperidade e fartura. Para atingir esses  objetivos, porém, é preciso comer apenas a polpa, não  mastigando nem engolindo as sementes. Sete delas devem ser embrulhadas em um papel branco até o Dia de Reis (6 de janeiro), quando deve guardada na carteira para atrair dinheiro até a chegada do próximo ano, quando o ritual deve ser repetido.

Como a romã, as nozes, a avelã, a castanha e a tâmara embarcaram em terras tupiniquins pelas mãos dos imigrantes de origem árabe e são recomendadas para assegurar a sorte e a fartura, devendo, portanto, integrar o menu de fim de ano, no qual também não  deve faltar o brinde com champanhe.  Originária da França (até o seu nome foi criado e é uma marca do país), a bebida tem pureza e qualidade reconhecidas no mundo todo.

Bebida nobre, o champanhe é associado à celebração e à riqueza. Por isso, os supersticiosos costumam fazer um brinde e beber uma taça de champanhe para atrair prosperidade financeira logo nos primeiros segundos do novo ano. Aqui, por custar caro para os brasileiros, o champanhe é frequentemente substituído por um espumante.

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Foto: Pixabay

Entrar o Ano Novo com o pé direito tem sua origem na época do Império Romano. A expressão surgiu como consequência de uma instrução dos sacerdotes para os convidados que fossem entrar em um salão, a fim de evitar má sorte. Antes dos romanos, outros povos, como os egípcios, os celtas e os gregos, já viam o lado direito do corpo humano como positivo e associado a bons augúrios, em oposição ao esquerdo (já no Extremo Oriente, o lado esquerdo é o considerado favorável).

Foto: Mstevencox/Pixabay

Origens à parte, o fato é que num país colonizado por tantos povos de religiões, costumes e culturas diferentes jamais deixaria de incorporar esses rituais e superstições ao seu dia a dia. E, na virada do ano, eles pipocam em todas as casas, praias, metrópoles e vilarejos rurais, ganhando características bem verde-amarelas em todo esse imenso território chamado Brasil.

Tim, tim!

 

Crédito da foto da abertura do texto: Pixabay

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